Valor Econômico - 03/11/2008
LA Hotels, da GP, negocia fusão com Invest Tur
Daniela D'Ambrosio e Roberta Campassi, de São Paulo
03/11/2008
A Invest Tur, companhia de desenvolvimento imobiliário em turismo, e a Latin America Hotels (LA Hotels), braço hoteleiro da empresa de participações GP, estão negociando uma fusão. No dia 20 de outubro, a LA Hotels já havia comprado 6,07% das ações da Invest Tur. Segundo o Valor apurou, desta vez, a GP deve adquirir uma participação entre 20% e 40% da empresa. A intenção não é assumir posição majoritária na Invest Tur.
A negociação acontece num momento em que o mercado imobiliário se deteriora e o acesso ao dinheiro se torna mais escasso em razão da crise financeira internacional. E o segmento hoteleiro de segundas residências e resorts, foco da Invest Tur, está especialmente difícil.
Na sexta-feira, as duas companhias publicaram fato relevante afirmando que iniciaram negociações, pelo prazo de até 30 dias e em base de exclusividade, para fechar uma possível associação estratégica. Os termos do acordo começam a ser desenhados agora para definir a relação de troca e a quantidade de ações que a GP vai adquirir. Na primeira compra, a GP adquiriu as ações em leilão e o preço pago não foi informado. Na sexta-feira, as ações da Invest Tur estavam cotadas a R$ 405, com queda de 1,33% em relação ao dia anterior.
Uma fusão entre as duas empresas faria com que, de um lado, a LA Hotels tivesse acesso ao caixa de R$ 542 milhões da Invest Tur e esta, por sua vez, passasse a ter imediatamente uma atividade operacional e presença mais forte no segmento de hotéis de negócios - a Invest Tur abriu o capital em julho de 2007 tendo apenas projetos no papel e nenhuma atividade em operação. Dos 18 projetos encabeçados hoje pela Invest Tur, dois se encaixam no segmento de hotéis urbanos, para o turismo de negócios, enquanto todos os outros 16 englobam a construção de resorts e condomínios de segunda residência para o segmento de lazer no litoral brasileiro, especialmente no Nordeste.
O segmento de segundas residências foi o mais afetado pela crise, segundo o presidente da Invest Tur, José Romeu Ferraz Neto. Na sexta-feira, em teleconferência para a divulgação de resultados, o executivo informou que a companhia suspendeu os seus primeiros lançamentos, que estavam planejados para até o fim deste ano. A crise de confiança gerada pela instabilidade econômica dos últimos dois meses e a incerteza sobre as condições de financiamentos de longo prazo, mais a perspectiva de alta de juros no Brasil, estão entre as causas do arrefecimento do mercado imobiliário de lazer, segundo a Invest Tur, para compradores domésticos e estrangeiros.
Segundo a empresa, há seis empreendimentos em estágio de lançamento com um valor geral de vendas (VGV) total de R$ 922 milhões, mas nenhuma venda ou construção será iniciada pelos próximos 60 dias ou até que as condições econômicas melhorem. A companhia também interrompeu a compra de terrenos para novos projetos e pretende cortar 35% dos custos em 2009.
Em outras palavras, a Invest Tur não obterá, por ora, as receitas que eram previstas. Na teleconferência, a empresa disse que tentará compensar a prorrogação das vendas de imóveis de segunda residência com outros projetos. "Estamos avaliando as alternativas no nosso portfólio para focarmos nos projetos que podem gerar receitas imediatas", disse Ferraz sem dar mais detalhes.
Com 99,9% das ações em circulação e alguns grandes investidores, a Invest Tur já vem sendo pressionada por alguns acionistas para encontrar uma solução. As gestoras de fundos Tarpon e Hedging-Griffo enviaram uma carta para a Invest Tur alegando que foram prejudicadas pela queda do valor das ações na bolsa - de 47,74% este ano. Eles propuseram retirar R$ 400 milhões do caixa da companhia e distribuir aos acionistas, o que foi rejeitado pelo conselho de administração. A Invest Tur tem hoje seis investidores com mais de 5% de participação. São eles o grupo Espírito Santo, com 12%; a Tarpon, com 7,77%; a Amber Latam (7,08%); a Blue Reff (6,08%); a LA Hotels (6,07%); e o Deutsche Bank (5,93%). A Hedging-Griffo aparecia com 5,60% das ações até o fim de setembro, mas, segundo a distribuição de capital atualizada no último dia de outubro, não figura mais entre os maiores acionistas.
Logo depois do episódio envolvendo a Tarpon e a Hedging-Griffo, a Invest Tur contratou o banco Merrill Lynch - comprado pelo Bank of America - para assessorá-la na análise de ofertas que recebeu nas últimas semanas, entre as quais a proposta da LA Hotels. Segundo o Valor apurou, as grandes incorporadoras também olharam o negócio, sobretudo em função da situação de caixa da Invest Tur.
Uma associação da Invest Tur com a LA daria, à primeira, acesso instantâneo à operação de 26 hotéis atualmente administrados ou controlados pela companhia da GP. Desde que entrou em operação, em dezembro de 2007, a LA já fez diversas aquisições em capitais como São Paulo, Salvador, Rio e Curitiba, voltando-se especialmente para o turismo de negócios.
Para a LA, a fusão teria como principal atrativo a alta posição de liqüidez da Invest Tur, que fechou o terceiro trimestre com caixa de R$ 542 milhões, muito acima da média das empresas do setor imobiliário. O dinheiro poderia ser usado para a compra de novos hotéis por parte da LA.
Uma fusão com a Invest Tur também representaria, para a LA, participação em uma empresa relevante no mercado turístico brasileiro e uma diversificação importante dos negócios. A operação faz sentido, segundo o Valor apurou, porque a LA acredita que o negócio de resorts combinado com segunda residência volte a ficar atrativo no médio prazo.
A empresa da GP tem planos ambiciosos e quer estar entre a primeira e a segunda posição no segmento hoteleiro, em número de quartos, dentro de dois e três anos. Hoje, com 26 empreendimentos, está na quarta posição. Mas a distância é grande até a líder Accor, que tem cerca de 140 empreendimentos no Brasil. Em seu interesse por crescer rapidamente, a LA já olhou a possibilidade de comprar as operações da Accor e a vice-líder, Atlantica, além de redes menores como a Transamérica. Procuradas, nem a LA Hotels nem a Invest Tur quiseram comentar a negociação.
Fonte: Valor Econômico
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