Françoise Terzian, para o Valor, de São Paulo
A crise atrapalhou o desempenho dos escritórios de arquitetura, mas não cessou o clima agitado dos pequenos negócios com foco em nichos específicos, como os de saúde, varejo e habitação popular. A C+A Arquitetura e Interiores, de São Paulo, com foco no setor de saúde, conseguiu fechar vários contratos ao longo do ano. Um deles foi o projeto arquitetônico da clínica de quimioterapia externa do Hospital Israelita Albert Einstein, que pediu atenção a cuidados pedidos pelo Ministério da Saúde, como dispor de ambientes claros. O outro, ainda em andamento, é o projeto de um centro de diagnósticos por imagem de três mil metros quadrados. Trata-se da nova marca DAIA, criada por dois médicos de Porto Velho (RO), e que promete diferenciar-se numa região onde a maior parte das clínicas funciona em casas adaptadas.
As responsáveis pelos dois projetos são as arquitetas Ana Paula Perez e Ana Carolina Tabach, sócias da C+A, fundada há 11 anos. A empresa fatura cerca de R$ 50 mil por mês e sempre trabalhou com a área de saúde. Ana Paula explica que, para projetar edifícios de saúde, o arquiteto precisa ter domínio das diversas especialidades e tecnologias médicas, além da legislação específica do setor. "As decisões devem levar em conta que esses edifícios precisam ter infraestrutura de vida longa. Daí a necessidade de projetá-los com flexibilidade, para que novas alterações e futuras expansões sejam realizadas", explica Ana Paula.
Com sete arquitetos e dois desenhistas, a C+A conquistou grandes clientes como o Einstein, a Federação das Unimeds, o Hospital de Câncer de Barretos, o Grupo Sobam (plano de saúde de Jundiaí), a Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo, a Escola Paulista de Medicina e o Hospital M´boi Mirim. Antes da crise, sua empresa chegou a faturar R$ 100 mil no mês.
Neste ano, as sócias foram obrigadas a reduzir preços e também custos - caso do reaproveitamento de papel, da definição de horários para saída do moto-boy e da restrição de ligações para celulares, agora feitas a partir de um celular comprado para essa função. Para 2009, a expectativa da C+A é manter o faturamento.
Segundo Ronaldo Rezende, presidente da Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura (Asbea), apesar da crise, o mercado está retomando o bom momento de três anos atrás. Muita gente que demitiu no começo do ano está voltando a contratar. Além das oportunidades no Brasil, Rezende conta que a Asbea quer internacionalizar a "criativa e moderna arquitetura brasileira". O foco inicial é conquistar projetos em Dubai, Angola e China.
O setor varejista, com muitas reformas resultantes de fusões e aquisições e abertura de novas lojas, também tem sido atraente. Esse é um dos principais focos do escritório Orbi Projetos e Resultados, que já conduziu projetos para Pão de Açúcar, Extra, Mambo e Wal-Mart (um dos maiores clientes da Orbi, com mais de 30 lojas projetadas e foco no desenvolvimento de lojas ecoeficientes e economicamente viáveis).
A pequena empresa foi aberta há seis anos pelos arquitetos Edison Lopes e Carlos Medina, ex-colegas de Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. O negócio, cujo investimento inicial foi no aluguel da sala e na compra de poucos computadores, faturou R$ 4 milhões em 2008 e deve crescer, pelo menos, 10% este ano. "O varejo mudou um pouco o foco para o consumidor de baixa renda. O Pão de Açúcar está focando na rede Assai, enquanto o Wal-Mart tem trabalhado na expansão da rede Maxxi no Nordeste", explica.
A Orbi conduz projetos em todo o país e atende não só redes supermercadistas, mas também atacadistas como o Makro, a rede Cobasi e Novo Mundo.
Há dois anos, a Orbi fechou parceria com o escritório Arquitectônica, sediado em Miami, no qual o escritório faz a conceituação dos empreendimentos e a Orbi desenvolve os projetos ajustando-os às exigências locais e fazendo a interface com o desenvolvimento das empresas de engenharia.
Outro escritório que tem avançado no mercado graças à proposta de nicho é a Andrade Azevedo Arquitetura Corporativa, de Marcos Azevedo e Claudia Andrade. Os dois iniciaram carreira em bancos - ele no Citibank e ela no Banco Nacional - e se especializaram em arquitetura corporativa. "Através dela, criamos o chamado bem-estar produtivo", explica Azevedo. Foi isso que o escritório fez com o novo prédio da Nestlé, no endereço antes ocupado pelo BankBoston na Marginal Pinheiros (SP).
A partir de um novo conceito de ocupação do prédio (uma espécie de reorganização do lay-out), Azevedo conta que a Nestlé aumentou sua produtividade em 3.5%. "Enquanto isso, empresas que trabalham com um espaço físico inadequado sofrem até 15% de perda de produtividade."
Esse cálculo contou pontos a favor da Andrade Azevedo, que conquistou o projeto. Hoje, o escritório atende uma média de 60 clientes e tem no portfólio nomes como Pepsico, Natura, Klabin Segall, Faber Castell e TV Globo. Por ano, a empresa fatura R$ 2 milhões.
Em 2009, no entanto, vai ser mais difícil manter esse número, uma vez que os investimentos foram adiados. "Temos multinacionais com projetos indefinidos há oito meses."