Levar ao pé da letra o termo "carbono zero" não é a melhor maneira de entender a complexidade das residências que propõem a utilização consciente de materiais, de novas tecnologias de energias renováveis, da destinação de resíduos e da redução do consumo de água, gerando baixa emissão de CO2. Há força, mas também muito marketing nesta expressão.
Pense em uma construção feita apenas com materiais naturais, que seja termicamente eficiente e que, ao fim de seu ciclo, suas matérias-primas se reintegrem à natureza da mesma maneira em que foram extraídas. "A rigor, a única casa carbono zero que existe é o iglu", aponta a arquiteta Flávia Ralston, uma defensora do que define como bioarquitetura e das construções eticamente corretas.
Obviamente, Flávia não defende que moremos todos em iglus. Afinal, o homem contemporâneo exerce atividades produtivas, vive em comunidade, se entretém das formas mais variadas e exige o máximo de conforto dentro de seu próprio lar. Não haveria a menor chance, portanto, de constituirmos "seres carbono zero". O que ela vê como primordial na construção de residências é o atributo do bom senso - a utilização dos recursos naturais em sua potencialidade e a preocupação real com todo esse ciclo, em cada uma de nossas opções e ações cotidianas.
Para Marcia Mikai Junqueira de Oliveira, sócia-diretora da Pentagrama Projetos em Sustentabilidade e membro do Comitê de Sustentabilidade da Associação Brasileira de Escritórios de Arquitetura (AsBEA), falar em carbono zero e sustentabilidade é uma meta e não uma terminologia encerrada em si mesma. "Não existe solução que não emita carbono, nem tenha impactos socioambientais. Em nome das mudanças climáticas, existe um alerta geral para que mudemos nossos hábitos e sistemas produtivos. É necessária uma busca contínua para a redução de consumo e mudança de padrões por meio de pesquisas e desenvolvimento de alternativas mais eficientes", assinala a arquiteta.
Marcia Mikai lembra que a dimensão de uma construção vai além dos limites do terreno: existe a concepção das cidades como um todo, onde os impactos se refletem na gestão dos recursos hídricos, dos aterros sanitários e da mobilidade urbana, e em fenômenos como a favelização e a poluição. "É na cidade que os impactos tornam-se mais visíveis", alerta.
Conforme a arquiteta Ana Lucia Siciliano, a casa deve ser pensada como um ciclo pertencente ao ambiente onde está inserida, e não somente como uma consumidora de água, ar, energia e produtos naturais - ou mesmo como uma geradora de resíduos. Por isso, ela necessita ter conforto térmico e lumínico, eficiência energética, consumo consciente de água e deve poder reciclar ou tratar seus resíduos para reintegrá-los à natureza ou ao processo produtivo, causando o menor impacto possível. "Muitas vezes não é possível atender a todos os requisitos na construção, mas a eficiência é alcançada por meio da combinação de diversas práticas sustentáveis estudadas caso a caso, pois quando utilizadas em separado não são tão eficazes", afirma Ana Lucia.
Entre as medidas que os especialistas apontam para uma construção mais sustentável estão o uso de materiais oriundos do local onde a obra será executada, a adoção de fontes de energia renováveis e a otimização dos sistemas do edifício quanto a equipamentos elétricos. Comprar produtos elétricos com o Selo Procel, utilizar metais sanitários com temporizadores, dar preferência a produtos que tenham conteúdo reciclado e utilizar tintas e colas com baixos índices de compostos orgânicos voláteis são outros requisitos de uma casa verde.
Também para ajudar na identificação de produtos corretos em empreendimentos verdes e promover a sua viabilidade econômica, o Grupo SustentaX desenvolveu o Selo SustentaX, que avalia e atesta a qualidade, a salubridade, a economia e a responsabilidade socioambiental de produtos e sua adequação em obras sustentáveis. Segundo a geógrafa Paola Figueiredo, diretora do grupo, em 2008, quarenta produtos receberam a certificação. Outros estão em processo de análise para obtenção do selo, entre tintas, metais sanitários, pisos, tecidos e adesivos.
Paola acredita que o consumidor brasileiro está preocupado com o aquecimento global e se mostra disposto a pagar mais por produtos fabricados com preocupação socioambiental. Ele deixaria, inclusive, de comprar marcas se soubesse que a empresa não segue esses princípios. "O mercado de produtos tem que se adequar a essa nova demanda; afinal, o consumidor já se conscientizou da importância do assunto", acredita a diretora.
Para aumentar a oferta de matérias-primas, é importante fomentar a pesquisa constante de materiais, sistemas construtivos e desenvolvimento de dados da avaliação de ciclo de vida (ACV) de produtos disponíveis no Brasil. "A ferramenta ACV é muito importante para gerar parâmetros de escolha de materiais, pois analisa os aspectos ambientais e os impactos potenciais associados a um produto, desde a extração das matérias-primas elementares que entram no sistema produtivo (berço) até a disposição do produto final (túmulo)", relata Marcia Mikai.
Na ACV são considerados fatores como produção de energia, processos que envolvem a manufatura, questões relacionadas às embalagens, transporte, consumo de energia não renovável, impactos relacionados ao uso, aproveitamento, reuso e descarte do produto. Marcia afirma que, por meio desses dados, tanto a indústria quanto o consumidor podem tomar decisões mais concretas para minimizar seus impactos: "O que é adequado hoje pode não ser amanhã. De qualquer maneira, é possível conceber projetos mais eficientes com os mesmos materiais comumente utilizados".