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AsBEA - Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura.
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10/Agosto/2009
Casa e Mercado

Carbono quase zero


Levar ao pé da letra o termo "carbono zero" não é a melhor maneira de entender a complexidade das residências que propõem a utilização consciente de  materiais, de novas tecnologias de energias renováveis, da destinação de resíduos e da redução do consumo de água, gerando baixa emissão de CO2. Há força,  mas também muito marketing nesta expressão.

Pense em uma construção feita apenas com materiais naturais, que seja termicamente eficiente e que, ao fim de seu ciclo, suas matérias-primas se reintegrem à  natureza da mesma maneira em que foram extraídas. "A rigor, a única casa carbono zero que existe é o iglu", aponta a arquiteta Flávia Ralston, uma defensora  do que define como bioarquitetura e das construções eticamente corretas.

Obviamente, Flávia não defende que moremos todos em iglus. Afinal, o homem contemporâneo exerce atividades produtivas, vive em comunidade, se entretém das  formas mais variadas e exige o máximo de conforto dentro de seu próprio lar. Não haveria a menor chance, portanto, de constituirmos "seres carbono zero". O  que ela vê como primordial na construção de residências é o atributo do bom senso - a utilização dos recursos naturais em sua potencialidade e a preocupação  real com todo esse ciclo, em cada uma de nossas opções e ações cotidianas.

Para Marcia Mikai Junqueira de Oliveira, sócia-diretora da Pentagrama Projetos em Sustentabilidade e membro do Comitê de Sustentabilidade da Associação  Brasileira de Escritórios de Arquitetura (AsBEA), falar em carbono zero e sustentabilidade é uma meta e não uma terminologia encerrada em si mesma. "Não  existe solução que não emita carbono, nem tenha impactos socioambientais. Em nome das mudanças climáticas, existe um alerta geral para que mudemos nossos  hábitos e sistemas produtivos. É necessária uma busca contínua para a redução de consumo e mudança de padrões por meio de pesquisas e desenvolvimento de  alternativas mais eficientes", assinala a arquiteta.

Marcia Mikai lembra que a dimensão de uma construção vai além dos limites do terreno: existe a concepção das cidades como um todo, onde os impactos se  refletem na gestão dos recursos hídricos, dos aterros sanitários e da mobilidade urbana, e em fenômenos como a favelização e a poluição. "É na cidade que os  impactos tornam-se mais visíveis", alerta.

Conforme a arquiteta Ana Lucia Siciliano, a casa deve ser pensada como um ciclo pertencente ao ambiente onde está inserida, e não somente como uma  consumidora de água, ar, energia e produtos naturais - ou mesmo como uma geradora de resíduos. Por isso, ela necessita ter conforto térmico e lumínico,  eficiência energética, consumo consciente de água e deve poder reciclar ou tratar seus resíduos para reintegrá-los à natureza ou ao processo produtivo,  causando o menor impacto possível. "Muitas vezes não é possível atender a todos os requisitos na construção, mas a eficiência é alcançada por meio da  combinação de diversas práticas sustentáveis estudadas caso a caso, pois quando utilizadas em separado não são tão eficazes", afirma Ana Lucia.

Entre as medidas que os especialistas apontam para uma construção mais sustentável estão o uso de materiais oriundos do local onde a obra será executada, a  adoção de fontes de energia renováveis e a otimização dos sistemas do edifício quanto a equipamentos elétricos. Comprar produtos elétricos com o Selo Procel,  utilizar metais sanitários com temporizadores, dar preferência a produtos que tenham conteúdo reciclado e utilizar tintas e colas com baixos índices de  compostos orgânicos voláteis são outros requisitos de uma casa verde.

Também para ajudar na identificação de produtos corretos em empreendimentos verdes e promover a sua viabilidade econômica, o Grupo SustentaX desenvolveu o  Selo SustentaX, que avalia e atesta a qualidade, a salubridade, a economia e a responsabilidade socioambiental de produtos e sua adequação em obras  sustentáveis. Segundo a geógrafa Paola Figueiredo, diretora do grupo, em 2008, quarenta produtos receberam a certificação. Outros estão em processo de  análise para obtenção do selo, entre tintas, metais sanitários, pisos, tecidos e adesivos.

Paola acredita que o consumidor brasileiro está preocupado com o aquecimento global e se mostra disposto a pagar mais por produtos fabricados com preocupação  socioambiental. Ele deixaria, inclusive, de comprar marcas se soubesse que a empresa não segue esses princípios. "O mercado de produtos tem que se adequar a  essa nova demanda; afinal, o consumidor já se conscientizou da importância do assunto", acredita a diretora.

Para aumentar a oferta de matérias-primas, é importante fomentar a pesquisa constante de materiais, sistemas construtivos e desenvolvimento de dados da  avaliação de ciclo de vida (ACV) de produtos disponíveis no Brasil. "A ferramenta ACV é muito importante para gerar parâmetros de escolha de materiais, pois  analisa os aspectos ambientais e os impactos potenciais associados a um produto, desde a extração das matérias-primas elementares que entram no sistema  produtivo (berço) até a disposição do produto final (túmulo)", relata Marcia Mikai.

Na ACV são considerados fatores como produção de energia, processos que envolvem a manufatura, questões relacionadas às embalagens, transporte, consumo de  energia não renovável, impactos relacionados ao uso, aproveitamento, reuso e descarte do produto. Marcia afirma que, por meio desses dados, tanto a indústria  quanto o consumidor podem tomar decisões mais concretas para minimizar seus impactos: "O que é adequado hoje pode não ser amanhã. De qualquer maneira, é  possível conceber projetos mais eficientes com os mesmos materiais comumente utilizados".



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