O boom imobiliário tem levado a classe média paulista a utilizar com mais frequência o trabalho de arquitetos para reformar o imóvel.
Essa percepção se evidencia pelo aumento do número de ARTs (Anotação de Responsabilidade Técnica) -registros do projeto e da obra- obrigatoriamente entregues pelo profissional no Crea-SP (Conselho Regional de Arquitetura, Engenharia e Agronomia do Estado de São Paulo).
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| Cassiano Braccialli contabiliza ter gastado em reformas o equivalente a um terço do que pagou pelo apartamento |
"Nossa média mensal passou de 30 mil ARTs no ano passado para 90 mil neste ano", calcula Francisco Kurimori, 59, chefe de gabinete do Crea-SP.
"A procura por arquitetos cresceu 50% no país nos últimos cinco anos", estima Gilson Paranhos, presidente do IAB (Instituto de Arquitetos do Brasil).
Contratá-los é uma boa saída para a falta de tempo para achar mão de obra especializada ou escolher materiais.
Em média, o preço de um projeto de reformas varia de R$ 40 a R$ 60 por m2.
Esse valor não inclui gastos com mão de obra e materiais. Se o arquiteto fica responsável por eles, o preço é maior, em geral medido em horas técnicas de trabalho -custam de R$ 200 a R$ 500.
"Gastei cerca de R$ 100 mil em reformas", diz Cassiano Braccialli, 25, gerente comercial. Ele diz ter pagado R$ 290 mil por seu apartamento de 85 m2.
"Como eu não sabia escolher nem uma cortina, amigos me indicaram a arquiteta Patrícia Vidigal."
Buscar referências com conhecidos é a dica de Marcio Mazza, vice-presidente da Asbea (Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura), para escolher o arquiteto.
Alguns profissionais ganham bônus das lojas que indicam, prática condenada pelo IAB e pelo Crea-SP.
IRREGULAR: 2.000 é o valor da multa, em reais, para reformas estruturais sem ART (relatório do arquiteto)
Fornecedores presenteiam arquitetos
Instituto brasileiro e conselho regional da classe condenam os profissionais que recebem bônus ao indicar loja
Para facilitar futuras reclamações, redija contrato que detalhe prazo, preço e forma de pagamento pelo serviço
Ao escolher o arquiteto, é preciso cuidado com uma prática do mercado condenada por entidades da classe.
Muitos profissionais recebem de fornecedores porcentagens sobre compras, viagens ou presentes -e, assim, podem restringir as opções de seus clientes.
Esses bônus são conhecidos no meio como reserva técnica. "É se corromper profissionalmente", diz Gilson Paranhos, presidente do IAB.
"É o mesmo que um médico indicar um remédio porque ganha do laboratório."
A comissão oferecida por lojistas e prestadores de serviço a arquitetos e decoradores é de, em média, 10% sobre o gasto no estabelecimento, mas chega a 30%.
Muitas lojas oferecem um cartão de fidelidade em que o arquiteto acumula pontos e ganha produtos e viagens.
Um exemplo é o programa "Malas Prontas", da loja de móveis planejados Bontempo, que já levou 250 profissionais para o Salão Internacional do Móvel de Milão.
Para se precaver contra cobranças indevidas, peça ao arquiteto seus registros no IAB e no Crea.
"Há pessoas conhecidas como arquitetas que sequer têm curso superior", frisa Paranhos.
CARTÓRIO
Também é importante firmar com o profissional um contrato bem detalhado, registrado em cartório, com "prazo de conclusão, preço e forma de pagamento e as consequências de uma eventual rescisão, como uma multa", estipula Rosana Ferrari, presidente do IAB-SP.
A bancária Marisa Mitiko não incluiu uma cláusula dessas no acordo e perdeu dinheiro ao romper com uma decoradora.
"Ela não fazia as mudanças que eu pedia e não cumpriu o prazo de entrega da proposta."
O IAB sugere uma tabela de valores para os honorários de execução, não obrigatória.
"Ela é uma referência, por exemplo, para processos na Justiça", afirma Paranhos. Prevê dois critérios de cobrança: uma fração -cerca de 10%- sobre o c
sto da obra ou um valor - média de R$ 200 a R$ 500 - por hora técnica de trabalho (acompanhamento, execução e responsabilidade pela obra). Essa responsabilidade inclui os registros do projeto e de sua execução no Crea. (RM)
CLASSE MÉDIA EM PROJETOS DE SÃO PAULO - A classe média quer ocupar bem os espaços.
No projeto das arquitetas Maria Piti e Fernanda Coifman para a engenheira química Sandra Terra, 38, um móvel na sala guarda louças. No quarto dos filhos, só há uma cama.
"Armários embutidos facilitam o tráfego", diz Terra.
Relação pede concessões de ambas as partes
É comum discordar das sugestões do arquiteto ou do decorador, mas o relacionamento com ele fica mais produtivo quando os dois lados sabem ceder.
A psicóloga Estela Cardeal, 57, conta que sua relação com a a arquiteta Rita Amorim, que já havia trabalhado para seu irmão, foi "muito bacana".
"Ela me apresentava várias opções, e a palavra final era a minha", afirma. Foi assim que escolheram as intervenções em seu apartamento de 120 m2, que precisaria acomodar também um escritório.
"Tudo deveria ser muito claro e fácil de limpar", define.
"Houve um dia em que cheguei ao apartamento e encontrei lá dez pessoas. Aí realmente acreditei que tinha acertado em contar com uma profissional, porque jamais teria como encontrar essa mão de obra e tampouco supervisionar o que ela estava fazendo."
Carla Scapacicio, 29, fisioterapeuta, não teve a mesma sorte. Ela diz ter interrompido uma obra já em andamento devido a atrasos e acabamentos mal colocados.
"Perdemos o material usado", lamenta.
A arquiteta Gabriela Campana assumiu a tarefa de ampliar a sala, eliminando um dos três quartos -alteração que a profissional anterior se negara a fazer.
"É comum o receio de tirar um quarto porque, na hora da venda, o imóvel será avaliado por dois e não três dormitórios. Mas uma parede de "dry wall" pode ser colocada facilmente a baixo custo", diz Campana.