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6/Junho/2010
Folha de S.Paulo

Classe média de SP contrata mais arquitetos para reformas


Registros de projetos e de obras triplicam em 2010; profissional cobra de R$ 40 a R$ 60 por m² Prática de receber bônus e presentes de fornecedores é condenada pelo IAB e pelo Crea-SP


Rosangela de Moura, colaboração para a Folha

O boom imobiliário tem levado a classe média paulista a utilizar com mais frequência o trabalho de arquitetos para reformar o imóvel.

Essa percepção se evidencia pelo aumento do número de ARTs (Anotação de Responsabilidade Técnica) -registros do projeto e da obra- obrigatoriamente entregues pelo profissional no Crea-SP (Conselho Regional de Arquitetura, Engenharia e Agronomia do Estado de São Paulo).

Cassiano Braccialli contabiliza ter gastado em reformas o equivalente a um terço do que pagou pelo apartamento
"Nossa média mensal passou de 30 mil ARTs no ano passado para 90 mil neste ano", calcula Francisco Kurimori, 59, chefe de gabinete do Crea-SP.

"A procura por arquitetos cresceu 50% no país nos últimos cinco anos", estima Gilson Paranhos, presidente do IAB (Instituto de Arquitetos do Brasil).

Contratá-los é uma boa saída para a falta de tempo para achar mão de obra especializada ou escolher materiais.

Em média, o preço de um projeto de reformas varia de R$ 40 a R$ 60 por m2.

Esse valor não inclui gastos com mão de obra e materiais. Se o arquiteto fica responsável por eles, o preço é maior, em geral medido em horas técnicas de trabalho -custam de R$ 200 a R$ 500.

"Gastei cerca de R$ 100 mil em reformas", diz Cassiano Braccialli, 25, gerente comercial. Ele diz ter pagado R$ 290 mil por seu apartamento de 85 m2.

"Como eu não sabia escolher nem uma cortina, amigos me indicaram a arquiteta Patrícia Vidigal."

Buscar referências com conhecidos é a dica de Marcio Mazza, vice-presidente da Asbea (Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura), para escolher o arquiteto.

Alguns profissionais ganham bônus das lojas que indicam, prática condenada pelo IAB e pelo Crea-SP.

IRREGULAR: 2.000 é o valor da multa, em reais, para reformas estruturais sem ART (relatório do arquiteto)

Fornecedores presenteiam arquitetos

Instituto brasileiro e conselho regional da classe condenam os profissionais que recebem bônus ao indicar loja

Para facilitar futuras reclamações, redija contrato que detalhe prazo, preço e forma de pagamento pelo serviço

Ao escolher o arquiteto, é preciso cuidado com uma prática do mercado condenada por entidades da classe.

Muitos profissionais recebem de fornecedores porcentagens sobre compras, viagens ou presentes -e, assim, podem restringir as opções de seus clientes.

Esses bônus são conhecidos no meio como reserva técnica. "É se corromper profissionalmente", diz Gilson Paranhos, presidente do IAB.

"É o mesmo que um médico indicar um remédio porque ganha do laboratório."

A comissão oferecida por lojistas e prestadores de serviço a arquitetos e decoradores é de, em média, 10% sobre o gasto no estabelecimento, mas chega a 30%.

Muitas lojas oferecem um cartão de fidelidade em que o arquiteto acumula pontos e ganha produtos e viagens.

Um exemplo é o programa "Malas Prontas", da loja de móveis planejados Bontempo, que já levou 250 profissionais para o Salão Internacional do Móvel de Milão.

Para se precaver contra cobranças indevidas, peça ao arquiteto seus registros no IAB e no Crea.

"Há pessoas conhecidas como arquitetas que sequer têm curso superior", frisa Paranhos.

CARTÓRIO

Também é importante firmar com o profissional um contrato bem detalhado, registrado em cartório, com "prazo de conclusão, preço e forma de pagamento e as consequências de uma eventual rescisão, como uma multa", estipula Rosana Ferrari, presidente do IAB-SP.

A bancária Marisa Mitiko não incluiu uma cláusula dessas no acordo e perdeu dinheiro ao romper com uma decoradora.

"Ela não fazia as mudanças que eu pedia e não cumpriu o prazo de entrega da proposta."

O IAB sugere uma tabela de valores para os honorários de execução, não obrigatória.

"Ela é uma referência, por exemplo, para processos na Justiça", afirma Paranhos. Prevê dois critérios de cobrança: uma fração -cerca de 10%- sobre o c

sto da obra ou um valor - média de R$ 200 a R$ 500 - por hora técnica de trabalho (acompanhamento, execução e responsabilidade pela obra). Essa responsabilidade inclui os registros do projeto e de sua execução no Crea. (RM)

CLASSE MÉDIA EM PROJETOS DE SÃO PAULO - A classe média quer ocupar bem os espaços.

No projeto das arquitetas Maria Piti e Fernanda Coifman para a engenheira química Sandra Terra, 38, um móvel na sala guarda louças. No quarto dos filhos, só há uma cama.

"Armários embutidos facilitam o tráfego", diz Terra.

Relação pede concessões de ambas as partes

É comum discordar das sugestões do arquiteto ou do decorador, mas o relacionamento com ele fica mais produtivo quando os dois lados sabem ceder.

A psicóloga Estela Cardeal, 57, conta que sua relação com a a arquiteta Rita Amorim, que já havia trabalhado para seu irmão, foi "muito bacana".

"Ela me apresentava várias opções, e a palavra final era a minha", afirma. Foi assim que escolheram as intervenções em seu apartamento de 120 m2, que precisaria acomodar também um escritório.

"Tudo deveria ser muito claro e fácil de limpar", define.

"Houve um dia em que cheguei ao apartamento e encontrei lá dez pessoas. Aí realmente acreditei que tinha acertado em contar com uma profissional, porque jamais teria como encontrar essa mão de obra e tampouco supervisionar o que ela estava fazendo."

Carla Scapacicio, 29, fisioterapeuta, não teve a mesma sorte. Ela diz ter interrompido uma obra já em andamento devido a atrasos e acabamentos mal colocados.

"Perdemos o material usado", lamenta.

A arquiteta Gabriela Campana assumiu a tarefa de ampliar a sala, eliminando um dos três quartos -alteração que a profissional anterior se negara a fazer.

"É comum o receio de tirar um quarto porque, na hora da venda, o imóvel será avaliado por dois e não três dormitórios. Mas uma parede de "dry wall" pode ser colocada facilmente a baixo custo", diz Campana.



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