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| Capela da Fazenda Veneza, em Valinhos, ganhadora do Prêmio Internacional de Arte Sacra |
O arquiteto paulistano Decio Tozzi é o primeiro brasileiro a ser premiado pela Fundação Frate Sole, organizadora do Prêmio Internacional de Arte Sacra, o mais prestigiado da categoria. Tozzi enviou três projetos para concorrer ao prêmio - Espaço de Celebração Papal, em Maceió (AL); Igreja Nossa Senhora da Conceição, em Guarulhos (SP); e a Capela da Fazenda Veneza, em Valinhos (SP) -, sendo que a obra vencedora foi a Capela da Fazenda Veneza, construída à beira de uma represa na Fazenda Veneza, no interior paulista. A cerimônia de premiação aconteceu no dia 4 de outubro (dia de São Francisco de Assis), em Pavia, na Itália.
Com um júri formado por um seleto grupo de arquitetos mundiais, como Francesco Dal Co, uma das maiores autoridades da crítica de arquitetura internacional, o prêmio está na 4ª edição e é destinado aos profissionais de todo o mundo que tenham realizado alguma obra religiosa nos últimos 10 anos. A premiação acontece a cada quatro anos e conta com o patrocínio do Vaticano.
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| O arq. Décio Tozzi é conhecido pela capacidade de "desenhar o vazio" |
Em suas obras, Tozzi acredita ser essencial buscar uma relação harmônica entre o espaço construído e o espaço natural. Seguindo esta linha, Tozzi projetou, em 1970, a casa-sede da Fazenda Veneza. Utilizada por seus proprietários basicamente como local de lazer. O espaço da capela foi previsto mas não construído na época. Com a venda da propriedade, ele foi chamado a concretizar o projeto para que a matriarca pudesse celebrar o matrimônio de uma de suas netas. A capela foi inaugurada em 2003 e logo veio a se tornar protagonista de sua história, conquistando premiações e citações em mais de 12 países, justamente pela simplicidade de suas formas e complexidade de seu conceito.
Preocupado com a essência do ser humano e a integração com o meio ambiente, o arquiteto paulistano conseguiu acrescentar dois elementos à paisagem natural da fazenda: a cobertura curva, abrigo do homem, e a Cruz de Cristo, implementada na água e pintada na cor vermelha para simbolizar o sangue de Jesus. Os dois símbolos arquitetônicos, que não se localizam no mesmo eixo, transmitem uma impressão de colagem. Porém, de pontos estratégicos, observa-se um conjunto singular, uma integração entre os elementos, dando significado à Capela da Fazenda Veneza.
Conhecido por sua capacidade de "desenhar o vazio", Tozzi explica como compõe no projeto a distância entre a nave e a cruz. "O vazio na arquitetura geralmente é percebido como um espaço entre volumes que tem função importante no conjunto. Na capela, o vazio desenha, em si, a sucessão dos espaços da liturgia do culto como o átrio, o batistério, a nave, o altar e a abside, que é o próprio lago."
"Essa é a catedral da natureza", explica. E acrescenta: "O maior desafio como arquiteto é descobrir, revelar e interpretar as novas formas para os indivíduos e para a sociedade. Essa busca constante da essência do ser individual e social me faz sonhar um mundo de harmonia e paz, onde o objetivo seja a construção permanente da humanidade".
Entre os três projetos enviados para concorrer ao prêmio mais prestigiado mundialmente na categoria Sacra - Espaço de Celebração Papal, em Maceió (AL); Igreja Nossa Senhora da Conceição, em Guarulhos (SP); e a Capela da Fazenda Veneza, em Valinhos (SP) - o trabalho vencedor de Decio Tozzi na premiação da Fundação Frate Sole, a Capela da Fazenda Veneza, é uma obra inigualável que só pode ser melhor explicada em forma de poesia. E foi assim que o arquiteto e artista apresentou seu trabalho aos organizadores da cobiçada premiação, texto este que faz parte de seu livro sobre o conjunto de toda sua obra: "Dois elementos plásticos assinalam um lugar na paisagem. Dois signos de ressonância profunda: um, a cobertura curva - Abrigo do Homem; outro, a Cruz de Cristo. Acrescentam-se à paisagem. Essa delicada relação gera um espaço na paisagem de beira lago - um vazio que desenha o pequeno templo. Configura-se, entre o abrigo e a cruz, a fluida sucessão espacial que sugere o programa litúrgico da capela - o átrio, o batistério, a nave inclinada, o altar e a abside que se confunde com o lago. O espaço da capela é o espaço da natureza!"
Ao adentrar na capela ou observar suas fotos, qualquer pessoa é capaz de entender estas palavras que apresentam de forma inspiradora um espaço de rara simplicidade - e ao mesmo tempo - de profunda complexidade em seu conceito. A descrição do projeto de Tozzi, portanto, continua em forma de poesia: "E esse lugar definido pelos elementos plásticos do desenho e da pequena igreja se integra à paisagem natural, sem limites, sem muros... A pequena capela assume a dimensão de uma catedral definida pelas montanhas do vale. As árvores tornam-se elementos iconográficos do templo assim desenhado. Os pássaros constituem-se protagonistas do espetáculo sempre renovado e mutável da natureza. O espaço do culto abrange, assim, o espaço do Universo."
A comunhão entre a natureza e o sagrado presente no projeto é de tal forma singular na interpretação do espaço litúrgico, que a Capela da Fazenda Veneza assumiu papel de protagonista logo após sua inauguração, em 2003. Na verdade, bem antes disso. A casa-sede da Fazenda Veneza também foi projetada por Tozzi, em 1970. O espaço da capela estava previsto, mas o projeto não foi efetivado na época. Já na mão de novos proprietários, a fazenda ganharia sua capela com a intervenção da matriarca da família, que desejava construí-la para celebrar o casamento de uma de suas netas. Tozzi fez a maquete para presenteá-la pelos 79 anos. Na seqüência, o arquiteto sugeriu aos netos que a presenteassem com a obra pelo aniversário de 80 anos. Projeto concluído, a capela foi inaugurada com a missa em comemoração ao seu aniversário.
O primeiro prêmio ao projeto aconteceu durante a 5ª Bienal Internacional de Arquitetura de Buenos Aires. Seguiram-se outros como o da Premiação Bienal da AsBEA (Associação Brasileira de Escritórios de Arquitetura), em 2004, até culminar com o da Fundação Frate Sole, em 2008. "A Capela da Fazenda Veneza ganhou vida própria, passou a ser protagonista de sua própria história, recebeu premiações importantes", conta Tozzi. A capela conquistou também uma importante referência no livro do arquiteto Roberto Segre, renomado estudioso da arquitetura mundial, em seu livro Arquitetura Brasileira Contemporânea: "A sobriedade, a exatidão e o ascetismo da rigorosa linguagem minimalista estão presentes na leveza linear da capela de Tozzi", diz ele no capítulo "A procura de novos caminhos". O projeto da capela encanta e já foi publicado em 12 países.
Situada em Valinhos, interior de São Paulo, à beira de um lago, a Capela da Fazenda Veneza, grandiosa em sua concepção minimalista, disputou com projetos de grandes templos e mosteiros. As diretrizes básicas do desenho desse pequeno templo fundam-se na convergência do sacro e profano através da música, na relação aberta da religião e natureza e na consciência ecológica que permeia o cotidiano daquela comunidade.
A população local possui uma cultura rural de acentuada fé e religiosidade além de gosto pela música tradicional regional, através das modas e canções de viola. Tozzi conta que tocadores de viola individuais, conjuntos e até orquestras de violeiros fazem parte da cultura antropológica local e se expressam nas festas populares e procissões religiosas.