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Notícias

4/Abril/2014

Choque de realidade: o cansaço do Rio com Copa e Olimpíada


Renata Batista, Valor Econômico

 

"Acabou o amor." O canto da torcida do Flamengo na arquibancada do Maracanã é, antes de tudo, um grito de guerra. Ecoa naqueles momentos de tensão, quando é preciso recobrar as forças. Fora dos gramados, o amor parece ter acabado também nas ruas e avenidas do Rio. A Cidade Maravilhosa exibe claros sinais de cansaço diante do desafio de abrigar, em um intervalo de apenas dois anos, os eventos esportivos de maior visibilidade do mundo: a Copa e a Olimpíada. Além das dificuldades naturais de uma metrópole como o Rio, o carioca ainda terá de enfrentar um segundo tempo exaustivo, com uma agenda extensa de obras em andamento, e conviver com o estresse de uma das mais acirradas disputas para o governo estadual em duas décadas. É preciso recobrar as forças.

Na semana passada, a turma do Jeitinho Carioca - coletivo que criou o bordão "Imagina na Copa" e produz uma websérie cômica sobre o Rio - foi ao largo da Carioca, no centro, para pesquisar novos episódios e conclamar o morador da cidade a fazer alguém feliz. O resultado foi pouco animador. Deixaram o local com uma longa lista de reclamações, do trânsito à sujeira nas ruas, passando pela alta dos preços e a questão da segurança pública, mas principalmente com a sensação de que o carioca não está bem-humorado em relação à sua cidade. "A irreverência deu lugar ao descaso e ao mau humor", diz Sil Esteves, uma das integrantes do grupo.

Nos últimos meses, uma onda de reclamações como essas acendeu o alerta no governo e também no setor privado do Rio, mesmo com o maior volume de investimentos dos últimos 50 anos. A preocupação geral é com um movimento que remeta à crise de autoestima que atingiu a cidade na década de 1990 e só arrefeceu quando o Rio obteve melhores indicadores econômicos e a cidade foi escolhida para ser sede da Olimpíada de 2016.

Pesquisas já captam a reversão na sensação de bem-estar. Depois de bater o recorde em 2011, no ano passado o orgulho de morar no Rio voltou ao nível de 2008, segundo o movimento Rio Como Vamos, que a cada dois anos faz levantamentos sobre a percepção dos cariocas a respeito da cidade.

"Há ansiedade em relação a vários assuntos e o tema da segurança, na minha opinião, está no topo da lista", observa o ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga, sócio da Gávea Investimentos e um apaixonado pelo Rio. "Mas vejo como positiva a resposta da opinião pública. As pessoas estão conscientes da importância da política", prossegue o economista, um dos nomes mais próximos do pré-candidato tucano à Presidência, Aécio Neves.

A possibilidade de a cidade ter se desviado do caminho de consolidar o reencontro com o sucesso pode ser um dos fatores para a sensação atual. Para Sebastião Santos, coordenador da ONG Viva Rio, os cariocas temem mais voltar aos momentos agudos das décadas perdidas do que os problemas causados pelas obras e a reverberação da questão da insegurança pública. "O medo influencia o humor, o jeito de ser, mas ainda não afetou a vida social e cultural do Rio."

Em junho, manifestações em várias cidades do país vocalizavam uma insatisfação nacional, mas, no Rio, as palavras de ordem alcançaram decibéis bem mais altos. Um mês depois, o governo de Sérgio Cabral (PMDB) já amargava a pior avaliação do país, segundo pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) em parceria com o Ibope. Apenas 12% da população considerava a sua gestão ótima ou boa. Nesta sexta-feira, Cabral deixa o Palácio da Guanabara com a intenção de ser candidato ao Senado.

Os protestos arranharam também o prefeito do Rio, Eduardo Paes (PMDB). Ele mesmo admite que está sendo "odiado" pela população e trabalha com a expectativa de que, quando as intervenções urbanas terminarem, terá sua reputação recuperada. O prefeito considera natural um certo desânimo de assessores - alguns emblemáticos -, que deixaram o seu governo nos últimos dias. Em menos de duas semanas anunciaram a saída a secretária de Educação, Cláudia Costin, e a diretora da Empresa Olímpica Municipal, Maria Silvia Bastos Marques. Já o secretário municipal de Transportes, Carlos Roberto Osório, braço direito de Paes, mesmo com todas as críticas em sua área, optou por disputar um cargo eletivo: vai postular uma vaga de deputado. Outros cinco assessores vão se desligar da prefeitura, entre eles o chefe da Casa Civil, Pedro Paulo Carvalho, muito próximo a Paes.

"Ninguém lembra que fui o prefeito que criou condições para que a cidade recebesse investimentos em um momento de crise no país", diz Paes. É verdade que não ajudou em nada um vídeo postado no YouTube, em fevereiro, que mostra o prefeito lançando restos de fruta durante um evento político. A cidade estava em meio à crise da greve dos garis e fazia seis meses que entrara em vigor a lei do Lixo Zero, que pune quem joga sujeira no chão. "Acho que estou superimpopular, mas não perdi o prazer de ser prefeito. Falem mal de mim, mas não da cidade." (Leia entrevista na página 10.)

Para Paes, fatores conjunturais colaboram para comprometer a imagem da cidade. Os transtornos causados pelas intervenções urbanas em virtude dos megaeventos, a constatação de que o Brasil é um "país que não vive seu melhor momento" e o fato de estarem "desafiando" o programa de pacificação da cidade, que visa recuperar territórios ocupados há décadas por traficantes e milicianos, tornam o panorama mais cinzento.

De fato, as nuvens estão carregadas, especialmente na área de segurança pública. Em menos de um ano, o Rio enfrentou longas e violentas manifestações. Foram duas greves com ampla repercussão - dos professores, em 2013, e dos garis, em pleno Carnaval. Ações do crime organizado e da polícia motivaram um novo pedido de ajuda ao governo federal - o primeiro desde que o programa das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) foi lançado, em 2008.

Nas ruas, as manifestações foram marcadas pela morte do cinegrafista da Rede Bandeirantes Santiago Ilídio Andrade, atingido por um sinalizador jogado por manifestantes, mas também por cenas de violência da polícia divulgadas nas redes sociais. Meses antes, houve ampla repercussão do caso do ajudante de pedreiro Amarildo Dias de Souza, supostamente morto por policiais da UPP da Rocinha. Ele era morador da favela de onde também saiu o grupo de PMs preso pela Polícia Federal nesta semana, acusado de fornecer informações para traficantes de drogas. As UPPs passaram a ser alvo de ataques, incluindo a morte de policiais em serviço. E a polícia também cometeu erros, simbolizados pelas cruéis imagens da servente Claudia Silva Ferreira, que foi arrastada no asfalto por um carro da PM durante um possível resgate, após ser baleada no Morro da Congonha, em Madureira.

"Os conflitos entre grupos armados e as UPPs deixam moradores que sempre estiveram vulneráveis em situação de terror", afirma Jorge Luiz Barbosa, coordenador da ONG Observatório das Favelas. Para ele, a ocupação do Complexo da Maré pelo Exército no fim de semana reforça a militarização do processo de pacificação. "Havia uma demanda de que os serviços públicos também chegassem às comunidades, o que não está acontecendo."

Genilson Araújo/Parceiro/Agência O Globo / Genilson Araújo/Parceiro/Agência O GloboVista aérea da Perimetral: "O carioca está cansado de obras que têm que ser feitas, do trânsito que não tinha. Talvez esteja com pouca paciência, mas adora a cidade", diz Mussnich
Mas os sinais de cansaço não estão apenas na esfera pública. O Índice de Confiança do Empresário (ICE), medido pela Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan), voltou a cair no começo do ano, depois de ensaiar uma recuperação no fim do segundo semestre de 2013. Ainda de acordo com a Firjan, o mercado de trabalho reflete esse estado de espírito: a geração de vagas registrou o pior resultado em dez anos em 2013. As oportunidades na construção civil - um dos setores mais ativos no Rio -, no ano passado, caíram para menos de 10% de 2012.

A previsão de investimentos na cidade é alta como nunca. Entre 2012 e 2014 soma US$ 18 bilhões, incluindo os US$ 5 bilhões em 48 projetos intermediados pela agência de promoção de investimentos Rio Negócios desde sua criação, em 2010. Já as obras de mobilidade e reestruturação urbana incluídas no pacote da Olimpíada representam mais US$ 8 bilhões. As informações são da Rio Negócios com base em dados da Firjan.

O economista da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Mauro Osório, especialista em economia fluminense, avalia que o Rio sofre por ter pouca reflexão sobre a própria realidade, o que faz o carioca ir da euforia à insatisfação sem muita sustentação. "Fiquei impressionado com o apoio da população à greve dos garis."

A cidade é também a que tem mais jovens entre as três maiores regiões metropolitanas, na categoria dos chamados "nem nem", de acordo com Osório. São os que nem trabalham nem estudam. Totalizam 26,8% ante 23,2%, de São Paulo, e 19,9%, de Belo Horizonte. Em alguns bairros, como Santa Cruz e Jacarezinho, esse índice chega a quase 40%. Na Rocinha, favela com o maior proporção de trabalhadores com carteira assinada da cidade, o percentual dos "nem nem" fica em 28%.

O salário médio no Rio, que em 2002 era de 85% do que é pago em São Paulo, ultrapassou a média do Estado vizinho e hoje é equivalente, de acordo com dados levantados pelo Sindicato de Hotéis, Bares e Restaurantes (SindRio). Mas não parece suficiente para compensar os aumentos da cesta de compras. Enquanto no Brasil, dos 50 itens que mais subiram em 2013, apenas 6 não são alimentos, no Rio, esses itens representam pouco mais da metade dos que mais pressionaram a inflação. Na lista das 50 maiores altas, estão psicólogos (6º item, com alta de 24,5%), joias (11º item, com 20,9%) e estacionamento, cujo aumento foi de 17,8% em 2013, além de clubes e aluguéis.

O custo de morar no Rio é um capítulo à parte nesse enredo repleto de efeitos colaterais por causa da Olimpíada e da Copa. "O carioca teve que optar por imóvel menor ou em localizações menos valorizadas", diz Fernando Schneider, diretor da administradora de imóveis Apsa, uma das maiores da cidade.

Neste ano, para se manter em um apartamento de dois quartos, com 75 m2 em Ipanema ou no Leblon, o carioca tem que desembolsar 70% mais do que em 2009, antes de a cidade ser escolhida para sediar a Olimpíada. Outra opção foi migrar para Copacabana ou Flamengo, de onde quem não quis aumentar os gastos com moradia teve que sair para desembarcar na Zona Norte, como Tijuca ou Jacarepaguá. "Esses preços de 2009 são muito próximos dos preços dos apartamentos quarto e sala nesses mesmos bairros em 2014. É o custo para se manter na Zona Sul."

O setor privado também enfrenta o mau humor do carioca, que neste verão lançou mão da irreverência em movimentos cujo mote era a crítica aos preços de alimentos e serviços na cidade. Foi daí que nasceram os movimentos nas redes sociais Rio Surreal, cujo mote é a denúncia de preços considerados extorsivos, e Isoporzinho, prática de levar para a rua a própria bebida em "coolers" que, até há algum tempo, era encarada de olho torto pelo carioca e recebia o apelido pejorativo de "farofa".

"Houve excessos. O setor [serviços] tem que ser competitivo. Não adianta varrer os problemas para debaixo do tapete. Tem que discutir e admitir que ninguém tem a resposta", diz Pedro de Lamare, presidente do SindRio, que fez um estudo para tentar explicar a alta dos preços dos serviços e descobriu novos fatores de pressão, para além dos aluguéis e da inflação de alimentos e mão de obra, como a demanda por segurança privada. "Esse item consome 1% do faturamento do setor. Alguns restaurantes que não tinham segurança estão contratando." Após ser assaltado recentemente, o CT Trattorie, restaurante do cultuado chef Claude Troisgros no Jardim Botânico, aderiu à segurança particular, segundo Lamare.

Todos esses indicadores, na avaliação de Tereza Lobo, do Rio Como Vamos, são insuficientes para compreender a dinâmica atual da cidade. Os principais gatilhos para essa percepção, em sua opinião, estão na mobilidade e na segurança, mas também existe uma grande insatisfação com os serviços. O carioca reconhece melhorias, principalmente na educação e na saúde, mas, quando precisa atribuir notas, é duro na avaliação, feita para as pesquisas do movimento. "Houve uma euforia com a Copa e a Olimpíada, estimulada pelo próprio governo, que, agora, volta como frustração. Mas isso não quer dizer que o carioca entrou em depressão."

Tereza analisa os indicadores de criminalidade, vê retrocesso, mas confirma que a cidade, como pondera o prefeito, está melhor. Os roubos na rua, por exemplo, subiram 19% em 2013, mas ainda estão cerca de 30% abaixo do registrado em 2009. O alerta se acende ao observar os indicadores do mal das grandes cidades na violência no trânsito, que pioram ano a ano. "Menos de 10% dos cariocas consideram o trânsito bom; 75% dos entrevistados citam a lentidão como o principal motivo, mas as outras razões estão associadas à postura dos próprios motoristas e do poder público", diz. "Não adianta só fazer campanha, tem que fiscalizar e punir."

Na prefeitura da capital, o esforço para destravar a insatisfação mobiliza uma força-tarefa de comunicação. A estratégia se sustenta nos dados sobre investimentos compilados pela Rio Negócios, na avaliação da agência de classificação de risco Standard & Poor''s, que rebaixou a nota de crédito do Brasil, mas manteve o "grau de investimento", e também de um discurso mais "pé no chão" do prefeito.

A pesquisadora Patrícia Cerqueira Reis, especialista em marketing de cidades da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), defende a tática mais realista ao discurso ufanista. O risco da retórica descolada da realidade seria o carioca entrar em uma espécie de síndrome da propaganda de margarina: "Olha a imagem que é vendida da cidade, mas não se reconhece".

"Essa imagem corresponde ao que o turista quer vivenciar quando vem ao Rio, mas não ao que o carioca vive aqui. É uma construção estereotipada, que é promovida pela própria prefeitura e acaba caindo no descrédito", diz. "A imagem do carioca alegre, que está sempre de bem com a vida, nem sempre corresponde à realidade."

Uma pesquisa do Instituto Ipsos SMX, feita a partir de menções espontâneas na internet, constatou que, entre fevereiro e março, 29% dos pesquisados demonstram um sentimento negativo em "ser carioca", mas a maioria (62%) exibe aspectos positivos.

Carioca emblemático, morador do Leblon e botafoguense, o advogado Francisco Mussnich, responsável por boa parte das mais vultosas operações de fusão e aquisição no Brasil, diz que é preciso ser fiel ao Rio. "O carioca está cansado de obras que têm que ser feitas, do trânsito que não tinha. Sente-se desprotegido. Talvez esteja com pouca paciência, mas adora a cidade", observa.

Na mesma linha, Fraga aproveita para recolocar na pauta a despoluição das águas da cidade, cujo símbolo máximo é a Baía de Guanabara. "O prazo de preparação para os Jogos [Olímpicos] não era suficiente. Todo mundo sabe que isso é trabalho para uma geração. Mas sonho com um Rio cada vez mais verde. O meio ambiente aqui deveria ser sagrado. Tem tudo a ver com a vocação da cidade", afirma.

 



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