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Notícias

5/Fevereiro/2013

Hospitais tentam ser sustentáveis e reduzir custos


Chris Martinez | Para o Valor, de São Paulo


Chris Martinez | Para o Valor, de São Paulo

As roupas de cama e tolhas do Hospital Sírio Libanês estão mais leves e, por isso, demandam menos água na hora da lavagem. O hospital também tem uma equipe de "agentes ambientais" para checar qualquer tipo de vazamento. Uma torneira com problemas é fonte certa de desperdício. No Albert Einstein, aventais e mantas que embalam equipamentos cirúrgicos são transformados em brinquedos, como escorregador. E no Paraná, no Hospital Municipal de Araucária, mães levam para casa, além do herdeiro, uma muda de planta nativa da região.

As iniciativas compõem uma lista de práticas sustentáveis adotadas por hospitais no Brasil e no mundo. À exceção do Albert Einstein, que traçou iniciativas próprias, os demais fazem parte uma rede de hospitais saudáveis, ou sustentáveis, que vem sendo, vagarosa e solidamente, construída: a Global Green and Healthy Hospital.
A rede brasileira já nasce formada por 40 unidades -- além do Sírio-Libanês, a Santa Casa de Misericórdia, de São Paulo, e o Instituto de Traumatologia e Ortopedia (Into), do Rio, fazem parte do grupo. E está sob o guarda chuva da organização internacional "Saúde sem Dano" (na tradução para o português), que reúne três mil hospitais em mais de 50 países.

Quem se habilita a integrar esta rede precisa cumprir pelo menos dois dos dez objetivos estabelecidos em uma agenda global: reduções no consumo de água e energia; tratamento de resíduos; controle de estoque de fármacos; redução da prescrição, considerada desnecessária, de remédios; e a substituição de substâncias químicas perigosas, como o mercúrio.

"Percebemos que não adianta se preocupar apenas com os problemas ambientais, mas, sim, no quanto o sistema de saúde impacta no meio ambiente", diz Vital Ribeiro, presidente do Projeto Hospitais Saudáveis, uma organização criada em 2010 para tornar "saudável" o setor e que atua como parceiro da Organização Não Governamental (ONG) Saúde sem Dano. Esta ONG não aceita aportes financeiros de fabricantes de insumos médico-hospitalares, nem recomenda nenhum produto comercial específico. Tem escritórios espalhados pelo mundo, da vizinha Buenos Aires, na Argentina, passando por Virginia (EUA), Bruxelas (Bélgica) e Manila (Filipinas). E onde não tem base própria trabalha com "sócios" estratégicos - ou representantes locais - assim consegue chegar a Nova Déli (Índia), Durban (África do Sul), Dar e Saalam (Tanzânia).

O engajamento dessas ONGs é cuidar de um setor que no Brasil movimenta R$ 337 bilhões, segundo a Organização Mundial do Comércio (OMS), e reúne 7 mil hospitais.

Do ponto de vista dos hospitais, a proposta pode ser mais ampla e visa, também, reduzir custos, já que não se trata de filantropia. Hospitais curam, mas poluem. "Quem entra no hospital quer ser tratado e a sua última preocupação, será com a sustentabilidade", diz o médico Marcos Tucherman, que há cinco anos se encarrega de tocar o projeto de sustentabilidade no Albert Einstein.

Desde 2006, o hospital já investiu R$ 100 milhões em programas do gênero - um valor considerável para os padrões atuais. E o montante não inclui a construção do novo prédio, anexo à unidade principal, no Morumbi (SP), cujo projeto foi feito sob as bases do Green Building Concuil e conta com a certificação LEED. "Esta cifra foi para ações sustentáveis", diz Tucherman.

Para seguir as rígidas exigências da organização norte-americana Joint Commission - que concede uma espécie de selo validando a qualidade na assistência médico-hospitalar de hospitais - o Einstein fez bem mais que a lição de casa. Um exemplo foi gerar a própria energia elétrica, sem ter que depender de geradores movidos a diesel em horários de pico ou mesmo quando há queda de energia. A Joint Commission estabelece que um hospital tem, no máximo, cinco segundos para reestabelecer uma queda de energia. "O Einsten faz 44 mil cirurgias por ano, e os centros cirúrgicos são totalmente dependentes de eletricidade - dos holofotes que iluminam a mesa até os bisturis", observa Tucherman.

Na tentativa de minimizar qualquer tipo de dado e de economizar na conta de luz, o hospital desembolsou R$ 7 milhões para construir uma subestação própria que traz, por via subterrânea, a energia gerada pela usina Elevatória de Traição, construída sobre o Rio Pinheiros e pertencente a Empresa Metropolitana de Águas e Energia (EMAE), de São Paulo. "Compramos a energia direto da usina", diz. "Fica mais barato."

Além de investimentos maciços na sua infraestrutura hospitalar, o Einstein também tem feito ações em parceria com seus fornecedores, a exemplo das mantas e aventais usados nos centros cirúrgicos produzidas pela Kimberly-Clark. Antes do projeto conjunto com multinacional, esse material - mesmo que estivesse intacto - era considerado lixo infectante e tinha o mesmo destino (um aterro) e obedecendo uma legislação específica. "É um projeto piloto para implantarmos a logística reversa", diz Vivian Mantellatto, consultora técnica da Kimberly. Hoje a separação do material - plástico, papel e tecido feito de prolipopileno - já é feita dentro do centro cirúrgico do Einstein. Lá, é recolhida semanalmente pela fabricante e segue para a MS Plásticos que transforma os produtos em insumo usados por fabricante de brinquedos de plástico. "Por mês, conseguimos recolher 800 quilos de material que antes era considerado resíduo infectante", acrescenta ela. A ideia da companhia é conseguir implantar o mesmo projeto - que no Einstein começou em agosto passado - em mais três hospitais de São Paulo.

Parece óbvio que um material limpo possa ser reaproveitado. Mas não é. A reciclagem em hospitais era, até recentemente, um mito. Até porque a questão fica associada ao lixo hospitalar infectante, complicado e de descarte específico (ver matéria abaixo).
No Sírio Libanês, desde o ano passado, o projeto Arte Verde, além de reciclar, gera receita para quem está sem emprego. Plástico e papéis que antes eram vendidos para reciclagem são, agora, doados para um grupo de 20 artesãs que produzem as bolsas de internação e que são recompradas pelo hospital. "Elas fazem duas mil unidades por mês e queremos, com esse projeto, colocar em prática o empreendedorismo. Podemos, inclusive, aumentar o leque de produtos", diz Flávio Alexandre Cardoso Álvares, coordenador de Sustentabilidade do Sírio-Libanês.

Em paralelo, o Sírio está capacitando um grupo de cinco catadores de lixo no bairro onde está instalado. A eles, doa todo o lixo reciclado do hospital. Mas para receber o material eles precisam estar com a saúde em ordem e livre do vício - eles eram alcóolatras.
Para o lixo orgânico de alimentos, a estratégia usada tanto pelo Sírio quanto pelo Einstein foi a compostagem para, depois, usar o material como adubo orgânico na agricultura e na jardinagem. É uma maneira de evitar os aterros sanitários - já bastante sobrecarregados.

No Hospital Municipal de Araucária, do Paraná, um dos destaques também vem da área alimentar. Mas não do lixo. Para ter uma cadeia de suprimento de verduras e legumes orgânicos, o hospital público, mas de gestão privada, desenvolveu, junto com a Emater e a Secretaria de Meio Ambiente, fornecedores locais. "Garantimos seis meses de compra e, com isso, conseguimos que esses produtores rurais reduzissem o preço em 35%", afirma Danilo Oliveira, diretor geral do hospital paranaense. Ter um fornecimento nas proximidades do hospital evitou que o abastecimento fosse feito em cidades vizinhas.

Uma iniciativa interessante é presentear mudas de plantas, no nascimento de um bebê. Segundo Oliveira, 95% das 1,5 mil mudas doadas até agora já foram plantadas - a aferição é feita por amostragem pelo hospital.

"O conjunto dessas ações poderá mudar o setor de saúde no Brasil", diz Ribeiro, pioneiro em empunhar a bandeira, ao criar o Projeto Hospitais Saudáveis, em 2008. A primeira iniciativa era banir o mercúrio e hoje os hospitais que fazem parte da rede Global Green and Healthy Hospital.

Hoje, já é perfeitamente possível substituir termômetros e aparelhos de pressão à base de mercúrio por alternativas digitais melhores, seguras e mais baratas. O INTO, do Rio, eliminou esses aparelhos dos seus consultórios, cumprindo umas das exigências. O objetivo do movimento é reunir pelo menos 10% dos hospitais brasileiros.



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Fonte: Archdaily


 


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